(Este post tinha sido escrito, originalmente, sob a influência da euforía das eleições presidenciais de 2010. Resolvi apaga-lo e reescrevê-lo acrescentando e retirando tópicos que não me agradaram. Espero que goste de re-lê-lo.)
Quem não gosta de escutar da boca dos outros que você aparenta ser muito mais jovem do que realmente é? Por incrível que pareça, isso me incomodou por muitos anos. Hoje me pergunto o porque disso, já que, atualmente, me encho de orgulho quando me dão até dez anos a menos de idade.
Recentemente me dei conta que não havia prestado muita atenção na minha transição para a vida adulta, e que havia ignorado tudo o que me fazia lembrar o quanto já havia vivido. Vivi a vida muito intensamente e com isso deixei de cultivar coisas que aprendi durante o processo. Dentre elas a da simplicidade em homenagear minhas memórias buscando entender a origem das idéias que forjaram meus paradigmas e semearam minhas paixões. Hoje, muitas tornaram-se referência da minha vida adulta e, destas, algumas ainda conseguem ser fiéis em reproduzir a alegria, o contentamento, a euforia, o odor, o sabor e a expectativa do momento em que passei por elas.
Aparentar dez anos mais jovem me traz a oportunidade de apreciar o frescor da juventude e tirar vantagem da experiência. Decidi deixar de tergiversar sobre minha idade e passar a encarar alguns fatos que influenciaram a minha história.
Como entender uma geração?
Para entender uma geração é preciso entender os paradigmas que a referenciam. Para a análise de uma geração nascida no último século é preciso conhecer alguns itens rotineiros que, muitas vezes, passam despercebidos: a roupa que se veste, a música que se escuta, o livro que se lê, a comida, a bebida e o remédio que se consome, os veículos motores que se pilota, os veículos noticiários onde se busca a informação, as tendências cinematográficas, o conteúdo da TV, os jogos de videogame, o esporte que se pratica, os aparatos que se usa para se comunicar e as relações sociais mantidas através dos símbolos de consumo. Esses paradigmas se encontrarão arraigados no fluxo cotidiano e, dependendo do grau de dependência e de relação com eles, se obterá o perfil da geração a que se refere.
Entendendo a minha geração
Para entender minha geração é importante criar um contexto. O contexto em que me baseio é ambientado nos lugares de minha infância e adolescência e podem ter características peculiares de minha classe social, de minha igreja, da cidade onde morei, do bairro e do convívio familiar. Portanto, esse texto deve ser tomado como um exercício, porque não pretende ser conclusivo para quem não viveu o contexto acima descrito. Ainda assim ele reflete os anseios do povo, das grandes metrópoles brasileiras e grandes cidades do interior do país na época em questão.
70's - 80's
Nos "tempos da ignorância total", quando a internet era relegada aos serviços de pesquisa, investigação e trânsito restrito de informações de inteligência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, uma de suas divisões, a ARPA (Agência de Pesquisas em Projetos Avançados), criou uma rede de comunicação chamada ARPAnet (1969), uma rede interna que unificava a troca de informações entre bases militares Norte-Americanas com o intuito de que o Pentágono não ficasse vulnerável a um ataque soviético. Isso se deu durante a maior guerra ideológica do século XX: a Guerra Fria. Com o tempo esse acesso restrito passou a ser de acesso privilegiado dos universitários Norte-Americanos, e lentamente, passou a disseminar-se por toda a norte-américa e, posteriormente, a todo planeta, resultando no que chamamos hoje de Internet, a rede internacional de computadores conectados planeta afora.
Nesta época a única coisa que nos "conectava" em comunidades eram os assuntos que escutávamos no rádio, líamos nos jornais e revistas, e assistíamos na televisão. Sair na rua para brincar estava tornando-se cada dia mais perigoso e um privilégio de poucos dentre os que viviam nas grandes cidades. Por isso terminávamos por nos reunir para brincar nas casa uns dos outros. As atividades se resumiam a assitir filmes VHS alugados ou gravados da televisão, jogar videogame, colecionar figuras e objetos de personagens da televisão e esporadicamente fazer alguma brincadeira de rua. Quando havia uma grande estréia iamos ao cinema; muitas vezes em bando. O computador ainda era uma raridade e quem tinha um acabava usando-o como um console de jogos mais sofisticados.
Comungar uns com os outros nossas expectativas, gostos, descobertas e sonhos era limitado pelo nosso enlace físico, lingüístico e social, restrito ao nosso contexto diário, através de reuniões esporádicas com parentes, colegas de escola, moradores e associações de bairro, na empresa, na igreja, e muitas vezes limitados a temas exclusivos da nossa comunidade, da nossa cidade ou sobre o "país do futuro". A única maneira de saber sobre o planeta e sobre as coisas que não estavam tão ao nosso redor era através do rádio, da tv, dos jornais e das revistas. Nessa época, havia um misto de confiança (na grande massa) e desconfiança (na elite) em tudo o que se dizia nesses meios de comunicação e, dependendo da classe social, credo, filiação partidária ou função, você podia confiar ou não num veículo de comunicação, ser atacado ou ovacionado por algum veículo de imprensa e ser obrigado "ou não" a engolir alterações em fatos com respeito a políticos, governo e celebridades, nada muito diferente de décadas anteriores ou da presente. Era uma época entre a decadência e o fim da Ditadura e qualquer movimento de contestação ainda era encarado como conspiratório, reacionário e extremista. Entretanto, já era bem vindo pela massa jovem e incauta que se revoltava.
A poucos anos do final da ditadura, com campanha para as eleições diretas, a economia estava caótica o "país do futuro" sem futuro e a minha geração parecia perdida, sem rumo e sem saber o que fazer com a liberdade que vinha conquistando a cada dia. A especulação financeira assolava a economia do país e a inflação comia, da noite para o dia, as nossas economias. Fodidos, mesmo assim, tínhamos a segurança de que a liberdade tinha vindo pra ficar, o que deflagrou uma juventude rebelde dissoluta em drogas e putaría, marcando o nosso "Woodstock", onde mais de 1 milhão de pessoas participaram durante 10 dias seguidos: o Rock in Rio. O Rock in Rio foi o grito de liberdade, a expressão máxima da geração que lutou pelo direito de liberdade de expressão e tratou de revolucionar assuntos como matrimônio, emprego, carreira, educação, dinheiro, consumismo, política, violência, sexualidade e drogas.
90's - 2000's
O final da guerra fria foi o marco revolucionário da segunda metade do século, onde gerações cansadas de serem controladas e massacradas por regimes autoritaristas, mostraram que socialismo não é a solução das diferenças, que a distribuição de renda deveria ser fruto de equilíbrio econômico e de políticas transparentes que proporcionassem oportunidades igualitárias.
A euforia da liberdade levou à dissolução dos costumes e ao hedonismo extremo, coisas, porém, que não durariam muito, porque, para a maioria, a água já estava "batendo na bunda". Não muito tempo depois, essa geração pós-ditadura, em meio a uma "ressaca da vitória", teve que "subir as calças" rapidamente e, meio desengonçada, teve que se adaptar ao ritmo da evolução do microchip. A abertura do mercado nacional para a competição com os outros mercados do planeta, mais estruturados e com parques e processos industriais menos obsoletos, nos pegou de "calças curtas". Para competir com países onde haviam os profissionais mais bem preparados do mundo, sobrecaiu nos ombros dessa geração desprevinida e despreparada, uma revolução sem armas. Além da desalienação tardía dessa juventude, a próxima década (90's) exigiría uma adaptação dolorida e tortuosa, que levaría muitos dos da minha geração a uma participação social e política pouco ou nada efetiva, consequência do seu esforço em superar o déficit na qualificação profissional que o país oferecia por conta de uma educação paternalista e antiquada, fomentada por governantes que ignoraram, propositadamente, a evolução tecnológica em várias áreas importantes do país.
De Rock "Revolucionário" oitentista, a trilha sonora dessa geração passou a ser o grunge, gênero musical que expressava o sentimento generalizado que vigorava nessa época e que daria sentido ao sentimento de vazio e sem-rumo do pós-liberdade (Nota: o grunge tem influência de outra geração (a geração X) no seu país de origem, os EUA, mas caiu como luva ao chegar no Brasil poucos anos depois das diretas no inicio da decada seguinte). O sentimento de derrota e de culpa por descobrir que foi enganada e privada da verdade durante muito tempo, além de não haver a possibilidade de fazer nada efetivo para mudar isso, tornou essa geração depressiva e desmotivada, uma sombra frágil daquilo que deveria ser, movendo pra mais tarde a cronologia dos acontecimentos etários típicos das gerações anteriores. Essa geração, ou se casou mais tarde, ou desfez seu matrimônio muito cedo, ou esta solteira até hoje, a fim de correr atrás do prejuízo. É a geração do conflito de gêneros, mas que participa ativamente da luta contra os pré-conceitos institucionais e, principalmente, é a geração da transição tecnológica. A geração que correu atrás do atraso e que preparou o caminho para que a geração seguinte, nascesse conectada. Os mais privilegiados, ou conseguiram educação fora do país, ou estudaram em escolas que procuraram aplicar o que existia de mais atual em métodos educacionais e, com isso, conseguiram resultados mais efetivos com menos idade.
A globalização nos fez crescer em diversas áreas e a falta de infraestrutura atraiu investimentos em diversas áreas do país. Não há como negar que tudo isso foi muito mais por conta das privatizações, que desestatizou o controle das comunicações e a disseminação de informação passou a ser inclusiva. As áreas que o estado detém, como a saúde, a segurança, a educação e a infraestrutura viária e urbana, ainda são extremamente precárias. Dinheiro publico é mal empregado quando não é desviado. Mas quando se fala de resultados da privatização temos uma "corrida da inclusão": nas últimas duas décadas, por exemplo, o celular passou de luxo da classe A, a símbolo de inclusão social, e a inclusão social passou a ser o tema principal das grandes economias de primeiro mundo, que saturadas em seus mercados internos e vendo-se sem caminho pra crescimento, passaram a olhar para os mercados emergentes como a solução para os seus problemas.
Neste momento o país vive uma de suas melhores fases. A pressão dos mercados externos, aliado às constantes crises econômicas mundiais, está atraindo grande volume de investimentos ao país. O Brasil está tendo a oportunidade de se confirmar como uma das maiores economias do mundo. Ainda temos muito trabalho a fazer. Reformar a política e os tributos. Colocar em dia as pendências sociais, provendo infraestrutura sanitária, nutricional e educacional, e a politização da população. Continuar a fomentar a inclusão social mesmo que ela tenha um grande cunho consumista inicialmente. Porque a partir do momento que a nova classe consumista amadurecer e aprender a investir ao invés de gastar, o país vai estar no ponto de maturidade ideal para se tornar uma grande potencia mundial.
Conclusão
Minha geração, a geração do Cruzeiro, do Cruzado, do Cruzado Novo, do Cruzeiro Real e do Real foi a que viveu o ponto da virada, uma geração que se fodeu e que agora está madura pra aproveitar os frutos de um projeto econômico bem estruturado que foi o Plano Real, um dos planos econômicos mais bem sucedidos já implantados no país e que, por isso, tem suportado uma sucessão de governos corruptos. Com alguma sabedoria deu-se autonomia a órgãos governamentais onde se encontra gente comprometida com a estabilidade econômica do pais.
No lado humano, somos a geração que acompanhou a queda da ditadura e que viu as cortinas se abrirem diante dos nossos olhos. A geração que pensou mais no ser humano. A geração que carregou o país pra cima e que está comprometida com ele mais do que muitos desocupados que julgam a classe média como sendo uma classe elitista. A geração menos egoísta e menos egocêntrica. A geração que espera que o reacionismo de Esquerda aliado à corrupção, não faça pior do que a Direita e o Centro Direita fizeram até hoje pelo país. Claro que em meio a tudo isso há algumas exceções que fazem vista grossa.
Por fim, essa é a geração que hoje está consumindo e investindo. Estamos com a carreira a pleno vapor. O cinema, a TV e a música da nossa época estão sendo resgatados, o mundo do entretenimento está investindo pesado em tornar-nos nostálgicos ao vermos os grandes ícones culturais da nossa juventude em remakes, reboots e reloads, mostrando para a geração atual o que houve de bom na nossa época, assim como aprendemos o que foi bom para os da geração da Tropicália, após a sua revolução de 64, e para os da semana de arte moderna de 22.
Bora curtir nosso momento!
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